O livro reúne contos e ensaios para discutir temas instigantes é um convite a aprofundar o debate sobre assédio sexual.  Quin é um editor proeminente de meia-idade da efervescente cena literária de Nova York, acusado de assédio e outros abusos por uma série de mulheres com quem trabalhou, principalmente na condição de chefe. Em seu esforço de processar os fatos que levaram ao seu cancelamento, ele faz uma análise por vezes autocomplacente, por vezes ambígua, entre o ingênuo e o farsesco. Outra editora, Margot, espécie de alter ego da autora, enxerga a situação de forma intermediária ― tem afeto por Quin e compõe um quadro complexo e inconcluso de qualidades e defeitos de seu amigo. Ele é mesmo um manipulador consciente? Seus atos passaram os limites do perdoável? “Isso é prazer”, conto escrito em 2019 sob o impacto do movimento #MeToo na realidade norte-americana, alterna entre esses dois pontos de vista para tratar de um tema que, por vir sempre e necessariamente impregnado de sentimentos, costuma perder nuances com facilidade. Para a autora de "Mau comportamento", livro que nos anos 1980 revolucionou a maneira como a sexualidade feminina é tratada na literatura e que é relançado pela Fósforo no Brasil, só a ficção é capaz de dar conta dessa intrincada trama demasiado humana. A temática do abuso sexual atravessa toda a produção de Gaitskill. Já em 1994, ela escreveu o ensaio “A dificuldade de seguir as regras”, em que revela uma experiência pessoal para refletir sobre o estupro ― especialmente o date rape, ou estupro em encontros românticos ― a partir da maneira como as mulheres são ensinadas a se comportar. A reunião desses dois textos em um só livro nos dá a dimensão dessa escritora incapaz de permanecer na superfície. Mary Gaitskill recusa dogmas e respostas fáceis ao mesmo tempo que nunca perdoa os autores de violência, por mais humanos que os revele em sua obra.

Isso é prazer + A dificuldade de seguir as regras

R$49.90Preço