Onde estão os rios cariocas? O que houve com as águas cristalinas que recendiam a flor de laranjeiras e desciam serpenteando dos altos da Tijuca para a planície do Flamengo? Onde está o rio que empresta seu nome àqueles que nasceram no Rio de Janeiro? De onde vem a água consumida nas residências cariocas? Denominações como Faria, Timbó, Comprido, Mãe Joana, Maracanã, Trapicheiro, Berquó identificam rios outrora límpidos que se perderam na memória de uma paisagem intensamente urbanizada. O Rio de Janeiro que ainda se percebe como lindo já abrigou cenários bucólicos, de natureza pródiga entrecortada por numerosos rios cuja existência hoje somente se descobre em litografias, aquarelas, óleos. Mas o que aconteceu com esses rios? Que aparência tinham? Por onde fluíam? Quem os usava?

Sete autores debruçaram-se sobre a história dos rios cariocas, ilustrada por cerca de 130 imagens, incluindo vasta iconografia de acervos brasileiros e estrangeiros, e um ensaio fotográfico atual produzido exclusivamente para o livro.

O jornalista André Trigueiro destaca em seu prefácio a grave crise sanitária que assola a cidade no século 21, com destaque para a contaminação da geosmina a partir do início de 2020.

Na busca pelos rios cariocas, a historiadora Lorelai Kury volta no tempo e aborda o período compreendido entre o início da colonização europeia e meados do século XIX. Analisa os documentos textuais, cartográficos e iconográficos que ressaltam a importância do Rio Carioca, principal fonte d’água tanto para os povos originários que habitavam a Guanabara quanto para os colonizadores franceses e portugueses. Suas águas eram coletadas na bica dos Marinheiros, na foz do Rio Comprido, no local onde hoje o viaduto Engenheiro Freyssinet, uma das principais artérias do trânsito carioca, se divide em direção ao Centro, à Linha Vermelha e ao Maracanã. Humanos e animais, principalmente equinos e bovinos, assim como plantações de numerosas chácaras necessitavam da água distribuída em fontes e chafarizes, numa cidade que se debatia entre pântanos, montanhas e mar, para saciar a sede e eliminar os dejetos do povoamento sempre crescente. Inicia-se a transformação da paisagem, com o aterramento da lagoa do Boqueirão e a retificação dos rios que limitavam o crescimento urbano.

Os historiadores Bruno Capilé e Lise Sedrez retomam o fio narrativo trazendo-o até finais do século XX, aprofundando-se nas obras sanitárias que objetivavam domar a natureza já profundamente marcada pelo uso intensivo dos recursos hídricos. A construção do canal do Mangue, que enterraria para sempre o Manguezal de São Diogo e a retificação de grandes rios como o Maracanã, Merity e Comprido selariam o destino desses corpos d’água que já não eram mais capazes de matar a sede de habitantes e atender sua infraestrutura, já pontilhada por indústrias. Os tentáculos urbanos estenderam-se em direção à baixada de Jacarepaguá, Santa Cruz e além, buscando água em paragens como a Serra do Tinguá e o Ribeirão das Lages, este represado tanto para matar a sede quanto para fornecer energia. Novas águas atravessavam divisas convergindo para atender a demanda do Rio de Janeiro, enquanto os rios da cidade evanesciam progressivamente sob o peso da terra e do asfalto por onde circulavam pessoas já na casa do milhão.

Grandes projetos consumiram somas vultosas sem que se evitassem crises hídricas recorrentes e que persistem até os dias de hoje, tema abordado pelo geógrafo Marcelo Motta, que esquadrinha a cidade do final do século XX até os dias atuais. Marcado pela degradação ambiental e pela poluição, esse período revela graves diferenças sociais que se refletem no abastecimento de água e acesso ao saneamento básico. Estações de tratamento e captações cada vez mais distantes são a resposta do poder público que prefere remediar a evitar os problemas ambientais constantes da agora metrópole do Rio de Janeiro.

O estado da arte da rede hidrográfica carioca foi registrado pelo fotógrafo Marco Terranova, que procurou as nascentes e acompanhou os cursos para desvelar onde e como estão os rios cariocas. Terranova percorreu do Centro até Sepetiba para apresentar um ensaio inédito e contundente.

O engenheiro civil sanitarista Alexandre Pessoa Dias, em seu posfácio, propõe o resgate da memória dos rios cariocas e elenca iniciativas de recuperação ambiental realizadas de forma independente por comunidades como a Favela da Maré, convidando o leitor a estabelecer uma nova relação humanidade-natureza.

Será esse o caminho para um futuro de águas limpas?

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